Terça-feira, Junho 24, 2008

Fim

Esse blog está encerrado, não haverá mais postagens.
Ainda assim há coisas boas para ler aqui, basta olhar os textos atingos.

Domingo, Março 02, 2008

Tarde de domingo

Eu te amo, cara. Por favor, acredite nisso.
Acredite em você. Acredite em mim.
Acredite na gente.

Você pode dormir se está doendo tanto por dentro: quando acordar, estarei por perto pra te dar um abraço.

As coisas acontecem assim mesmo às vezes, a gente fica triste, não tem como evitar. Só peço que, mesmo que você não saiba ou não entenda por que está triste, que não se ataque. Não leva a nada.
Mesmo sabendo que não leva a nada, às vezes a gente se ataca. Acontece. Se acontecer com você, não se preocupe, lembre apenas que vai passar. Lembre-se que amanhã ou depois você estará melhor.

Isso passa. Vai passar, meu amor, eu prometo. E no fundo você também sabe que vai passar.
E não importa se, pra se machucar, você às vezes deixa de acreditar em mim e acha que eu quero te ferir. Mesmo que você não acredite, eu estou e estarei sempre ao seu lado. Não faço isso pra te convencer. Faço porque te amo. E eu sei pelo que está passando.
Sei que dói. Sei que passa.
Enquanto durar e depois de passar, estarei junto a você. Acredite ou não.

E não importa o quanto você queira me convencer dos absurdos que vem à sua cabeça. Você não me convencerá de que não vale a pena. Quanto mais você não acreditar em si, eu mais acreditarei em você. Um dia você vê que eu estou certo.

Um grande beijo. Acorde, você faz falta.

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Temporadas

Um dia você começa a lembrar das melhores passagens e até pega o DVD da última temporada, mas eis que começa a temporada seguinte e tudo mudou: Chandler casou com Mônica, Rachel engravidou de Ross etc. etc. etc., as cenas vão se fechando mais e mais em círculos menores e o que antes era um grupo de amigos se torna as intrigras/interesses/piadas de grupos particulares, também divertidos, mas sem a mesma mágica. Melhor assistir várias e várias vezes esse último DVD e os anteriores, porque as coisas não estão mais como eram.
Entretanto, os episódios continuam passando e um belo dia o seriado chegou ao fim e Joe está tentando fazer as coisas como eram, mas em uma nova série, completamente alienígina.

Um dia você passa a enxergar sua vida como se fosse o seu seriado preferido.

O tempo passa, as pessoas deixam de ter as mesmas curtições, os mesmos planos, as mesmas opiniões. Cada um vai formando sua pequena patota e vivendo seu universo restrito e só você está tentando fazer as coisas serem como eram antes.
É preciso aceitar que muitos personagens da última temporada saíram de cena, que agora Joe vai ter que dar o melhor pela nova série e que seu próprio papel é muito diferente sem seus amigos.

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

Ainda estou aqui pensando em você toda sorridente e feliz. Estava lembrando de High Fidelity, daquele trecho perto do fim, em que o protagonista pede a namorada em casamento. Ele diz que percebeu que as outras mulheres por quem pudesse se interessar seriam apenas fantasias e que a mulher com quem queria passar o resto da vida era ela. Sem dúvida é uma belíssima love story, até uma lição de vida.
E pensei que o que eu tenho com você também é uma love story muito bonita, cheia de fantasias: você está sempre me surpreendendo com jeitos, interesses, gostos e inteligências diferentes, tantos pedacinhos, mais faces que um diamante. Além de ser uma mulher amável e companheira, é supreendente, me mostra cores e sons, do sambá ao axé ou rock'n roll, do museu, ao marketing e à filosofia. Assim, vai tecendo minha vida cheia de fantasias e realidades, que, no fim, acabam a mesma coisa.

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Zeca e eu

Hoje sonhei de novo com o Zeca.
Sonhei que o encontrava, tanto tempo depois de ele ter ido daqui, e ele tinha medo de mim. Tanto medo que não atendia quando eu chamava, apenas queria ficar escondido embaixo da mesa. E se eu tentasse pegá-lo, ficava agressivo, como se defendesse sua própria vida.
Acordei e fiquei pensando, tinha sido um sonho doído, que motivo teria meu (ex) cachorro para me temer tanto? Minha omissão?
Percebi que não se tratava do Zeca, afinal. Eu sou o Zeca do sonho.

Sábado, Novembro 24, 2007

Prainha: parte 2

Saí no estacionamento e o sol me esquentou de uma maneira agradável. Percebi que estou ausente de mim ao me pegar caminhando sem rumo pelo estacionamento, cada vez mais longe do carro e da elétrica. Eu sempre evito andar sem rumo quando estou de carro pois acabo ficando longe e depois tenho que voltar. Mas dessa vez me permiti, não haveria nada de interessante em lugar algum em que o carro pudesse me levar, e caminhar ao sol estava bom nesse dia levemente frio.
Passei pelos serviços gerais da poli (escola politécnica - engenharia) e pelo Pure-usp e atravessei a avenida, chegando à eca (escola de comunicação e artes). Lembrei que existe a "prainha da eca", a qual, pelo nome, deveria ser boa para se tomar sol.
Havia um grande área ensolarada e um meio fio, onde me sentei. Fiquei olhando para a eca e para as pessoas da eca. Percebi que não foi à toa que acabei ali. Era como visitar um velho amigo que não conheci, matar a saudade de uma coisa que eu nunca vivi.
Imaginei como minha vida teria sido diferente se eu tivesse ido estudar lá, como eu seria mais feliz com aquelas pessoas. Pensei que eu queria aquela vida tranqüila e se eu iria gostar de algum curso. E se eu gostasse, se o curso que eu quisesse fazer me daria sustento.
Pensei que o mundo de hoje se parece em algo com a Grécia antiga: muitos trabalham demais para que uns trabalhem menos e tenham mais tempo para pensar. Acho que estou mais ou menos no meio, às vezes me sobra algum tempo pra pensar, mas não tenho como querer viver só disso.
O sol se escondeu atrás das nuvens, voltei a caminhar em direção à poli. Acho que me sinto hoje novamente como me sentia há sete meses: um tanto triste, um tanto confuso e, pelo menos, também um pouco vivo, como se algo tivesse mudado em mim e eu tivesse me libertado. E sentisse medo da vida.

Querido diário: parte 1

Meu dia foi estranho. Não só por eu estar um pouco atrapalhado, mas também por estar um pouco triste. Acordei com o despertador, o que raramente acontece, às oito. Fui então fazer o trabalho semestral que já tanto fiz e que descubro maior quanto mais o faço.
Minha prova de laboratório era às duas, então tomei um banho meio dia e não me lembro que horas saí de casa. Ainda bem que foi cedo, pois lembrei que já havia pegado parte dos relatórios na secretaria e que os tinha deixado em casa. Voltei para casa, peguei os que faltavam e procurei na internet se a prova era com consulta, mas não achei nada acerca disso.
Voltei para a poli. Chegando lá, lembrei que não tinha trazido minha calculadora. Como ainda faltava meia hora, fui mais uma vez para casa e voltei rápido com ela para não me atrasar. Acontece que vi que faltava-me um dos cinco relatórios. Lembrei que ele ainda não tinha sido corrigido no dia em que peguei os primeiros, então fui à secretaria ver se o encontrava, mas não estava lá. Esse relatório tinha sido feito em grupo e na certa alguém já tinha pegado e eu ia ficar sem.
Já estava oito minutos atrasado, fui para o anfiteatro onde o teste seria aplicado e ainda estavam distribuindo as questões. A primeira questão era sobre a primeira experiência do semestre, mas eu ainda lembrava bastante coisa. Fiquei na dúvida num item e esse não sei se acertei.
A segunda e a terceira também não eram difíceis. Me agradeci sinceramente por estar com a calculadora, mas os relatórios nem adiantaram pois a prova era sem consulta. A quarta e última questão era mais difícil e o tempo era curto, preenchi sem pensar muito e o tempo acabou.
Voltei pra casa e vi que a reunião do projeto será só na segunda. E meu colega me ligou dizendo que tinha um erro no código que ele me mandou. Eu disse-lhe que havia mais de um erro e que tinha mandado o que precisava ser corrigido pro email dele. Respondeu-me que me mandava corrigido ainda hoje.
Desligamos e fui fazer uma previsão de quanto preciso tirar nas provas de física para passar direto: 4,6 e 4,6. Fique curioso quanto às outras matérias e, como não havia nada de interessante pra fazer em casa, fui pela quarta vez à poli e olhei minhas notas desanimadoras. Pensei que vou precisar de muito sacrifício pra passar nas matérias.

Quinta-feira, Julho 19, 2007

A Leveza e o Peso

Advertência, separação, vômito, diarréia, choro, prova,
nota, revisão, antipatia, aversão, portão, cobrança,
impulso, dívida, frio, doença, mentira, solidão, micose,
fome, gastrite, pressa, sono, frustração, piripaque,
tentação, divisão, tentativa, unipresença, exame,
diagnóstico, remédios, preço, saudade, cobrança,
obrigação, obesidade, indisposição, apatia, desânimo.


A vida muitas vezes parece mais pesada do que se pode agüentar.
Mas depois de tanto carregar, o próprio tempo fica leve.
Surge, despropósito, um riso ingênuo de um distraído
e a felicidade de uma criança.

Segunda-feira, Maio 14, 2007

Sazonalidade

A noite cruel, o frio do inverno, o sono excessivo, o nó no peito, o um-mundo-inteiro-pra-dentro, o desejar companhia instantânea, ... - eu conheço essa combinação.
Cara, você está caindo hein, sai disso, sai rápido! =//

Sábado, Maio 12, 2007

"Obrigado por tudo que você está fazendo por mim"

Eu gosto muito dos meus amigos e geralmente gosto, também, dos amigos dos meus amigos, dos amigos destes, e, por fim, acabo gostando de quase todo mundo.
Mas existem pessoas, e felizmente não são poucas, que são para mim como lendárias e que merecem todos os bons-tratos da vida. Já que não controlo a vida, posso apenas dar tudo de mim para vê-las feliz, da maneira como eu conseguir, seja apenas em um sorriso, seja distraindo um momento instável, seja aliviando uma fase ruim.
Obrigado por tudo que você está fazendo por mim; não, obrigado por deixar a mim fazer algo por você.

Segunda-feira, Abril 30, 2007

A inversão da base familiar

Em ocasiões de choque, mudança abrupta da situação corrente, ou, explicando melhor, em situações em que pessoas são abdusidas do seu contexto - porque algumas pessoas só fazem sentido em seu contexto -, ou ainda, nos casos em que o contexto é abdusido das pessoas, seja por morte, doença ou muitas outras possíveis causas, pode acontecer de ruírem as estruturas familiares. É aí que se coloca à prova a maturidade de quem está atravessando a tempestade, e, não raro, já vi as pessoas que se imaginava serem as mais preparadas pra guiar a todos nessa crise simplesmente absterem-se do comando, entrarem em parafuso emocional e apresentarem uma regressão psicológica e comportamental que às vezes estende-se por anos. Seria talvez até cômico, não fosse trágico pelos danos e marcas e pela extensão de tempo, ver pais neo-adolescentes e filhos recém-forçosamente-pós-crianças (embora às vezes até atrasados) trocarem de papéis. Pergunto-me se esses pais não tiveram em sua juventude passado por uma situação tal qual e, se não, como e quando eles se tornaram adultos? Ou será que simplesmente criaram ao redor de si uma fortaleza de máscaras e continuaram bebês vida adentro, empresa adentro, cargos adentro? Talvez as pessoas simplesmente não passassem por isso nas gerações anteriores, já que casavam e íam-se antes mesmo de perceber a tal da estrutura familiar.

Quarta-feira, Abril 25, 2007

Blogs

Eu amo blogs, cara, e gostaria que o meu fosse tão interessante quanto os que eu leio por aí. Mas quem mandou fazer engenharia, não é? Quem sabe com muito treino, afinal. Parabéns a Danilo Bressan e a

vale "te amo" no clube do rock ou é muito emo?

O que interessa?
teve uns lances aí de pseudo e par que ninguém tava entendendo direito mas que deu certo no final

Terça-feira, Abril 24, 2007

amor tecnicolor

o bom da vida é sair da crise dos 12 com um par psicodélico.

referência: http://www.plasticdrop.com.br/caffeine , 24.4.07.

Domingo, Abril 22, 2007

Piririm

D.L.:
Meu irmão me mandou uma musiquinha fantástica. Eu vejo gente assim todos os dias:

Piririm Piririm Piririm, alguém broxou em mim
Piririm Piririm Piririm, alguém broxou em mim

Sou eu o polinésio, a facul tá de matá
Vai ser na hora da prova que um nabo eu vou tomá

Vai me arrastar pra cama?
nã, não! Vou estudá!
Vai me arrastar pra cama?
nã, não! Vou estudá!

Tô ficando molhadinha, to ficando molhadinha
não é sempre que eu dô mole!
Calma, calma, eu sô da POLI!

Tô ficando molhadinha, to ficando molhadinha
não é sempre que eu dô mole!
Calma, calma, eu sô da POLI!

Quarta-feira, Abril 18, 2007

[02:44:31]:

"é cruel. mas eu n quis me privar de sentir isso, por ela."
Algumas coisas precisam de muitas palavras para serem explicadas.
Algumas palavras precisam muitas coisas.

Domingo, Abril 15, 2007

Milhos são amigos

Para os vegetarianos

Quinta-feira, Abril 12, 2007

É mais uma noite em que o silêncio, o frio e o escuro imperam fora da janela mas a lâmpada está acesa no meu quarto, apenas, e as pessoas estão dormindo. Quem me dera fosse de manhã, eu poderia cumprir pela última vez nos próximos quase dois meses esse roteiro insuportável: ler, procurar, entender, decorar, engolir. Engolir o medo e a ansiedade, implorar mais uma vez ao meu corpo duas horas sem questionamentos, sem fraquezas, sem sonhos, sem vontades. Duas horas em que ele não entre no meu caminho, não me atrapalhe, duas horas de servidão completa. E, ao final, desculpas sinceras pelo mal resultado e vontade desesperada de fuga.
Como, bebo (leite - nunca fiz amigos bebendo leite), abro um livro, acendo um incenso, coloco Mutantes ou Guess Who. Procuro em todas as sensações cores para uma noite preta, para uma semana fútil, para uma vida formada pela sucessão de fugas desconexas que amarro com um fio hipócrita de imaginativa e forçada auto-imagem. Vejo a hipocrisia em todas as minhas soluções e enfim esclareço: noites estáticas como essa são feitas para se atravessar acompanhado. Para se fugir no calor do corpo e da alma de alguém.
Não mais que dois parágrafos - não mais que dois parágrafos resumem a grandeza dos meus ínfimos problemas.

Quarta-feira, Abril 11, 2007

Fim

Será provavelmente um fim de tarde. Provavelmente em um lugar alto, já que talvez seja preciso altura. Mas não necessariamente, restará a vista, então. A vista será bonita e ampla.
Olharei ao horizonte e à meia distância. Haverá algum (ou muito) verde, que me dará tranqüilidade, e um pouco de vento, que fará a paisagem se mexer. Sentirei o vento e olharei a paisagem. Vendo-a mover-se, os sentimentos e as imagens que estarão a me preencher não mais parecerão estáticos. As pessoas ausentes comigo nesse momento não mais parecerão retratos. Eu não mais me sentirei só.
O vento acolherá meu corpo e levantará meus cabelos. Tomarei um ar profundo e ele parecerá mais forte. Pensarei que os deuses baixaram suas vistas sobre mim, misericordiosos, e tentarei ouvir suas vozes em algum nuance, na penumbra do anoitecer.
Virão vozes aos turbilhões e minha mente girará e elevar-se-á. Então virão os sentimentos profundos, negados e renegados, e novamente as pessoas. Sem nenhuma máscara, chorarei sinceramente minhas pequenas dores e infundadas saudades, tocarei mais uma vez as mais importantes pessoas. Certamente algumas lembrarão de mim nessa hora. Agradecerei. Pedirei as desculpas sinceras que me restarem pedir. Fecharei os olhos, respirarei fundo mais uma vez. Tomarei um gole de uma bebida doce e forte, alcoólica, que trarei comigo. She's come undun...

Segunda-feira, Abril 02, 2007

Fulô do rochedo

... criou e deixou um afeto sem rumo, um princípio de amor que, crescendo (duma forma que o acaso conduza) ou não (por problemas geográficos, por minha "incompreensão", por minha instabilidade, por meu medo de me envolver ou por qualquer outra coisa), é bonito como uma pequena flôr que está a brotar sobre um rochedo: um grande horizonte à volta e um grande perigo ao futuro. Portanto, independentemente do que venha a ser o futuro, agradeço-lhe pelos sublimes momentos que passamos e pela bela flôr que me deixaste.

Terceiro olhar

Foi uma coisa meio estranha, meio surreal, a gente nem se conhecia. Fomos ao cinema, ficamos e, no outro dia, começamos a namorar. Era engraçado e dava um frio na barriga, ela era bastante diferente de mim, gostava de falar e queria conversar, tinha experiências fantásticas com amigos que eu não conhecia. Eu, por outro lado, gostava apenas de olhar os olhos dela, olhos que achava lindos e para os quais criei inúmeras metáforas e juras de adolescente apaixonado.
Nossos encontros costumavam ser no calçadão da 13 de julho, onde a conversa saía ou não e acabava em beijos e em eu admirando seus olhos. Me lembro também de termos ido, talvez mais de uma vez, ao parque da sementeira. Numa delas, levou-me aquelas uvas sem semente da fazenda de um parente seu. Lembro como uma tarde muito doce. Algumas vezes, também, ela ia à minha casa e ficávamos deitados no deck olhando para o céu. O céu para mim é, provavelmente desde aqueles dias, uma coisa mística. Simboliza paz e alegria, e me faz sentir que tudo e todos são bons e belos sob as estrelas. É um sentimento sublime, abstrato, de nenhuma forma justificável racionalmente. É um sentimento de elevação, é o amor por todas as coisas. Lembro-me dos seus cabelos, presos ou soltos - como eu gostava -, lembro da brisa fria e do tempo que parecia infinito: parecia que ia durar para sempre.

Terça-feira, Novembro 07, 2006

Sentimentos Fantasmas

Sabe, eu sempre fui a favor do "entre em contato com seus sentimentos e descubra o que está errado para poder tentar resolvê-los". Mas muito recentemente eu cheguei a conclusão que às vezes não há nada errado, às vezes os sentimentos são apenas um padrão de comportamento. Tipo, você se acostumou a se sentir de certa maneira e agora sua mente apenas reproduz aquela angústia novamente e novamente por ser um padrão mental que se auto-alimenta. A angústia gera angústia e isso não tem fim. Não que isso se aplique necessariamente ao seu caso, é só uma hipótese, uma possibilidade. Porque ao meu caso se aplica. Eu não tenho problemas reais, tenha apenas fantasmas de problemas que ecoam na minha cabeça e são amplificados.
Fatasmas não são visíveis, são dispersos, difusos, não são definíveis, não estão concentrados em um ponto, ninguém sabe se são reais ou se são apenas algo da nossa cabeça.
Os fantasmas na verdade são reflexos de uma reação não-proporcional a alguma coisa real. Minha reação não-proporcional foi ter ficado em pânico ao me mudar para esta cidade. O fantasma é aquele sentimento ecoando, se repetindo, mesmo que desprovido de significado depois de eu ter me acostumado a morar aqui.

Terça-feira, Agosto 15, 2006

Universo Restrito: a verdade

escuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuroescuro
escuroescuroescuro

madrugadas são escuras
mas está escuro pra caralho
é por dentro.

frio
triste
madrugadas são mudas
mas seu silêncio grita
(....................................................................................................
......................................................................................................
......................................................................................................
......................................................................................................
......................................................................................................
......................................................................................................
.....................................................................................................)
estou esperando, esperando, esperando,
mas o quê?
as portas estão abertas, as janelas
nada vem.
Eu gosto de distribuir flores e presentes
pequenos ou grandes presentes
e (mas) gosto de atirar cacos pelas janelas
por elas nada entra
(e talvez as portas não estejam realmente abertas).
Uma vez entrou pela janela, no décimo segundo andar
uma pequena flor branca
muito bonita com seus dois centímetros
hoje eu queria apenas uma pétala
branca mesmo
não precisa de cheiro nem nada
pode ser de uma pequena flor de dois centímetros
pode ser uma gota, um respingo
pode ser um suspiro
pode ser de uma pessoa imaginária
não precisa ficar
nem mesmo me convencer de que aconteceu
pode sentar-se à mesa na varanda
soltar um suspiro
e ir embora sem olhar pra trás
(e de preferrência não olhe pra trás
o que eu sinto é meu
e não tem cura).

Sábado, Julho 01, 2006

Síntese de uma pessoa

Eu adoro você, Manu. E quando eu gosto de alguém, não largo. Chiclete? Pode ser, não me importa. Chamem-me do que quiserem, julguem-me, condenem-me. Eu não vivo para satisfazer rótulos, vivo pela expressão máxima de tudo o que sinto, sou uma sucessão de impulsos não censurados. E o que eu sinto é que você é essência, não superfície. Sinto sua fidelidade ao que sente, ao que vale, ao que vai e volta com mesma sinceridade. Sinto que seus olhos castanho-claros não escondem nada: você é sensível, você é intensa, você se entrega, você se machuca, você se retira, você se resguarda.
Você é linda, Manu. É linda em sua pele clara contra seus cabelos escuros e ondulados, é linda em seu olhar suave contra seus cílios imponentes, é linda em seu jeito majestade contra seu corpo delicado e, ao mesmo tempo, sensual. Você é completa, em sua força e em sua fraquesa feminina, em sua independência, em sua carência e em suas contradições - ora tão determinada e ora tão voluta. É você, Manu: força, oposição, não convencional (original!), e até exótica. Você, sua sensibilidade, sua intensidade, seus sentimentos à flor-da-pele.
Você é bela, Manu, e eu vivo pelo que é belo e, quando encontro, não largo nunca. Te admiro de longe, de perto, da forma que posso. Acompanho seus passos, torço por você, torço pela sua felicidade. Eu tento te dizer, tento te fazer entender o quanto você é além, o quanto você é a mais, mas creio que você só veja o quanto gosto muito de você. Sim, gosto muito, e não largo mais. Mas o que importa que você veja é que você é uma maravilha, dessas que ocasionalmente encontramos na vida. Tenho um pressentimento profundo de que você pode ter tudo o que quiser e todos que quiser. Não te quero para mim, é parte da sua beleza a sua liberdade e a sua expontaneidade, mas quero estar sempre ao seu lado, nunca te deixarei, jamais. E, à minha maneira, a amo.


A Manu

Sábado, Junho 24, 2006

Os sentimentos

Os sentimentos são mulherezinhas aladas de um palmo de tamanho, bastante temperamentais, que ficam voando em torno de um pequeno lago, mais-ou-menos redondo, cercado por grandes árvores. O sol entra através da folhagem das árvores e forma feixes de luz muito bonitos que chegam até a água e iluminam um pouco a paisagem, o que é bom, já que senão seria demais escuro. De vez em quando as mulherezinhas voam próximas a um feixe de luz e a gente consegue entender o que elas estão fazendo e porque estão agindo daquela forma, mas às vezes elas ficam um tempão nos lugares mais escuros e a gente não vê nem entende nada. Só que elas estão sempre lá, não adianta negá-las nem querer acabar com elas.
Nós somos intrinsicamente seres que sentem, nossos setimentos são imortais. Cuide bem dos seus sentimentos, mesmo os que pareçam te fazer mal; no fundo eles só querem o seu bem. É verdade que eles não tem um bom-senso muito bem desenvolvido e que, às vezes, vêm em horas muito inconvenientes, mas cuide deles mesmo assim, e em algum tempo eles o recompensarão com o que chamamos de amor-próprio.

Terça-feira, Junho 20, 2006

Agradecimento

Em poucos instantes eu havia me preparado e estava pronto para partir. Não levaria nada, nada havia de importante para levar. Olhei para o céu, olhei para o horizonte - olhei para o Destino. Desejei-me sorte. O plano era ir, o dinheiro era pouco; talvez não conseguisse voltar. Mas para que voltar? Para que voltar, agora? O que me cercava nesse instante era o que eu menos queria. Fui, sem me preocupar. O que eu queria era o não saber, o inesperado, quem sabe a necessidade, uma necessidade que me fizesse esquecer a minha própria necessidade. Dormiria na rua se preciso, ou numa rodoviária, ou em qualquer canto.
Sair de São Paulo não é facil. A cidade é tão grande que parece tentar impedir a saída dos que desejam deixá-la. Perguntei-lhe o que seria preciso para seguir e recebi uma pequena lista de transportes como resposta. Ao menos para os urbanos eu tinha passes.
Fugi num pequeno coletivo, como que para passar despercebido pelas fronteiras da cidade implacável. E tão logo saí de seu domínio já senti o ar a purificar-se e a luz a chegar com mais intensidade a mim. Onde estaria eu naquele momento, como saberia estar indo para onde pretendia? Não sabia, e isso agradou-me. Chegar também não era o mais importante, porém sair, simplesmente, o era. Ainda assim, cheguei.
E que bom que cheguei. Uma pequena flor rodada floresceu um abraço para me receber. Como eu precisava de um abraço! Não lembrei mais do que tinha acontecido antes daquilo. Já seguro, impressionei-me por como de tanta simplicidade erguia-se tanta força. Eram muitos e grandes os problemas presentes e os já passados, mas não havia exitar no olhar daquelas pessoas. Apenas certezas. E em suas fés, em seu amor, em suas esperanças distraídas, em suas serenas maturidades, a vida seguia, cantarolando uma música singela e alegre.
Conheci um pouco da vida daquela gente maravilhosa e algumas outras pessoas que as rodeavam. A noite foi fantástica e mesmo o meu pouco dinheiro foi suficiente. Ouvimos músicas, conversamos, bebemos, curtimos o vento e a natureza ao redor. Mesmo a ressaca do dia seguinte estava agradecida por aquela noite.
Não havia dinheiro para voltar, mas não foi preciso. A vida arrumou-se por si mesma, e logo eu estava em casa.
Obrigado Pai, obrigado Maria Isabel, pelo fim-de-semana maravilhoso que me presentearam. Mais uma vez vi a força e a esperança surgirem em mim inabaláveis donde antes não existiam perspectivas. Mais uma vez reconstrui-me rapidamente! Quem sabe um dia eu seja tão forte que nada mais me atinja?
Agradeço aos meus amigos. E os meus amigos, porque os tenho.
Amém.

Eu e a Isabel


"Eu não desisto assim tão fácil meu amor, das coisas que eu quero fazer
e ainda não fiz
Na vida tudo tem seu preço, seu valor, e eu só quero dessa vida é ser feliz
Eu não abro mão
Nem por você nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos
Quero saber bem mais que os meus vinte e poucos anos"
-Fábio Júnior

Domingo, Junho 04, 2006

A Ansiedade

Adoro quando a jogo contra a parede: encontro suas causas, a imobilizo e rio de sua agonia, sem que possa me fazer mal.
A ansiedade é um pequeno demônio, não chega a alcançar meus ombros. Sua pele é marrom-escura e viscosa, e sua cabeça é um pouco maior que um coco marrom. Os dentes são pequenos e pontiagudos e, seu sorriso, irônico. É incapaz de provocar grandes males se pudermos controlá-la, já que sua força é bastante limitada. Mas, se constantemente repetidos, seus ataques causam cortes inflamados na auto-imagem do portador, pois suas garras agudas e venenosas enfraquecem a vítima, que se frustra por não conseguir realizar tarefas banais.
Fraca e pequena, porém ágil, versátil e engenhosa. Esconde-se em nossos pontos cegos - nossos medos e nossas covardias. Aproveita-se de eventuais indisposições da vítima para propagar-se e, quando possível, eternizar-se. Portanto, ironicamente, é um demônio covarde, o que significa que possui a mesma característica que ataca em seu hospedeiro.
A ironia é sobre-humana: quem será o demônio de quem?

Terça-feira, Maio 30, 2006

Criando e destruindo princesas

O rapaz não sabia que olhava para dentro de si. E, todas as poesias que até então escrevera, o fizera porque ele era daquele jeito - assim. Não por que fosse aquela uma menina especial ou, em qualquer coisa, diferente.

Onde está toda a beleza, agora? Ela permanece sendo bela e intensa: não foi ela quem passou, enfim...

Sábado, Maio 27, 2006

Um último adeus

Ouço o último grito de agonia de uma realidade muito distante mas ainda demasiadamente presente. Sim, confesso abafar uma enorme esfera de saudade-do-adeus, um tanto de tristeza-da-morte-dos-sonhos e um pouco de decepção-do-fim-de-tudo. Sinto a solidão e toda a merecida confusão de quando o futuro deixou de ser como era - infundado, porém nítido.
Vejo seu céu azul com suas poucas nuvens brancas, seus coqueiros tranqüilos à brisa, sua água salgada do mar. Céu que lembra sempre a infinitude do mundo e que molda em sua altura nossos sonhos. Horizonte cujo fim ainda parece coincidir com o fim da Terra.
E além desses horizontes, cá estou eu a desligar-me do último dos seus filhos. Noto teu desconforto, tua indignação. Entendo-te. Entendo também o outro lado do último beijo dos amantes, lado em que nunca estive. É inútil disparar contra alvos quaisquer - o futuro já foi escrito, embora doa em mim, também. Não te enganes com desculpas - sabes que tiveste tua chance no tempo e que colhes o fruto que plantaste. Lamento o fim, mas não posso mudar tuas escolhas.
Agradeço aos que me acompanharam. Seus fins, em mim, o começo.

Segunda-feira, Maio 22, 2006

Existe a depressão:

Existe um estado que você tá mal pra caralho, que você não tem vontade de levantar da cama e que tudo parece pior. Parece que você é a coisa mais imbecil do mundo e que só você não consegue fazer certas coisas que todo mundo faz. Aí, depois de não levantar da cama por um tempo, você acha melhor levantar porque dormir já tá dando dor de cabeça, e então esquece um pouco a tristeza, comendo muito, tipo, uma carne muito boa e depois muito doce até passar mal.
Depois você toca violão mesmo lembrando que tem que estudar pra prova de amanhã e fica matando o tempo até ficar cansado e com sono. Nesse momento vem aquele insight, cai a ficha, e você vê que é um merda, que provavelmente você é o último incapaz do mundo que não consegue fazer nada do que todos fazem, não consegue estudar e nem tocar violão direito e que até dormir tá ficando entediante e solitário.
Bem, é nesse momento em que fazem sentido as idéias autodestrutivas.

Sábado, Abril 15, 2006

Chácara

Tia Helena é a irmã mais velha da minha mãe. Ela mora no litoral sul, numa casa-de-praia-chácara deliciosa, onde meus queridos avós maternos passaram seus últimos anos... tenho boas lembranças daquela época na casa da tia Helena. Minha avó era uma velhinha sorridente, o que lhe dava um ar de muito viva, mesmo quando estava com a saúde frágil, e era muito carinhosa. Sempre que eu acordava, saía pela porta da cozinha, que é na lateral da casa, e encontrava a vó Amélia sentada numa cadeira no meio das árvores de frutas, ora olhando pro mar, ora olhando pro céu, como quem vê a coisa mais bela na mais simples das coisas.
Não conheci meu avô. Imagino-o como um homem gentil e carinhoso como a minha avó, pelo menos acho que ela merecia uma pessoa tal como era. Dizem que ele trabalhou muito pra criar seus filhos, pois era muito pobre quando se casou. O que sei é que ele era uma pessoa alegre, ou pelo menos acho que era, é a impressão que tenho ao vê-lo nas fotos que ficaram.
Hoje sou eu quem fica sentado entre as árvores de frutas olhando pro céu e pro mar. Fico lembrando da vovó, das festas de família em que estivemos juntos, dos natais cheios de presentes e dos doces que ela fazia. Gosto quando faz dias frios e nublados lá na praia, me lembra quando eu ficava embrulhado em baixo da coberta e a vó Amelia ficava me mimando.
A vó se foi, mas a alegria da casa não se foi com ela. A tia Helena é minha segunda avó materna, a adoro. Sempre tranqüila e com seus conselhos sábios nas horas difíceis. Ela me ensinou muita coisa sobre tudo: a ter responsabilidade, mas aproveitar o que é bom da vida em meio às obrigações, a ser persistente para superar as adversidades, mas ainda mais persistente em manter o sorriso enquanto tentar. Acho que cresci e fiquei um pouco parecido com ela - responsável, porém sereno. Agora só me falta a sua sapiência.

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Poema passageiro

Queria a beleza da verdade
na tranqüilidade da poesia
lida pela primeira vez
e suas imagens

Queria os olhos
cheios de lágrimas cristalinas
que refletissem a serenidade
do azul poente
do céu da minha boca
enquanto da minha boca voam
mil meias poesias

Queria que cada palavra
enriquecesse mais e mais
um pedaço da sua própria história,
das suas próprias dúvidas
e dos seus próprios sentimentos

Onde se esconde
toda essa beleza que vejo
em você dentro de mim?
Espero sua voz,
seu nome,
seus olhos
e o tempo.

Segunda-feira, Dezembro 19, 2005

Vida atemporal

Não há passado,
futuro ou presente
há somente estagnação.
E quanto aos prazeres,
mera necessidade de satisfazer
às próprias neuroses e obsessões
nada resta senão o tédio eterno
de um tempo que não passa
e assistir os dias repetirem-se,
quase iguais,
mas agora sem o acréscimo
das sensações carnais
que me consolam.

Sexta-feira, Outubro 07, 2005

Toca

Aqui mora um ser perturbado
que vê os olhos do escuro
e sente mãos de pequenos demônios
segurando seus pés e roendo
as pontas de seus dedos
Aqui há uma linda rosa que secou
da qual ainda pode-se sentir o cheiro
do ontem e os espinhos do hoje
E há uma tristeza contaminante
que quer fazer todos tristes também.
Aqui há uma guerra de espíritos
que rastejam agarrando os calcanhares,
há choro, há desespero,
há sensação de fim iminente,
há um coração rasgado.

Quinta-feira, Maio 20, 2004

Poema de dez faces

Eu choro a seco,
neste ato de esconder
até de mim mesmo
minhas lágrimas,
olhando no infinito
com uma cara tão
expressiva e pálida
quanto uma parede

Ato covarde, covarde como
o meu cínico costume
de evitar os lugares
onde sei que escondi
as soluções,
e de chamar
o mesmo problema
com tantos nomes
que poderia invocar
uma multidão

Eu olho os problemas
passeando à minha frente
como se estivessem atrasados,
todos, em seus ternos, gravatas
e chapéus pretos, iguais,
todos iguais,
diferindo, talvez,
apenas em idade
e disposição:
alguns tão cansados
de se arrastar,
cansados como eu,
que parece que poderiam
deixar de existir
sem que pudessem,
nem ao menos,
perceber

Me vejo sentado
na sarjeta de noite,
óculos escuros
para não ver diretamente
o que eu não quero ver:
quem sabe sejam problemas
quem sabe sejam soluções

Me vejo mal-encarado,
cara fechada,
inspirando o medo
que meus olhos descontentes,
fixos nos seus,
podem inspirar.
E sozinho,
do jeito que eu quis,
para manter você
e todos os problemas
longe de mim

Dentro de mim,
agressividade e fúria
se levantam contra tudo
o que eu pense ou deseje,
como uma revolta
pela falta de reação,
pelo descaso, pela censura;
abafo para dentro com vigor
qualquer rebelião:
revoltas devem ser controladas

Enquanto isso,
em meu rosto,
apenas os meus olhos se movem,
de olhos a olhos,
de estrela a estrela

Ando pelas ruas,
a indiferença
da noite, do mundo
pelas minhas intrigas
me consola
Percebo quão insignificante
são os meus mistérios,
vejo que o mundo continua
parado
e que é a minha cabeça
que roda
como água descendo pelo ralo

E o que me incomoda
continua a me incomodar
mas o que importa?
Hoje estamos sozinhos
eu, a Lua e a noite,
nada pode nos fazer mal

Vou andando rua adentro,
"Keep Walking",
dizia Johnnie Walker.
Vou andando rua adentro,
noite adentro, peito adentro.

Domingo, Maio 04, 2003

Conto do amor infantil

Saudadozeu, eu fofo nenem você. Eu ero bem piquinininho e você me amavazeu muito e a gente brincava de imaginar e você era uma fadinha de cabelo de cachoeira de chocolate e eu tinha asinha e ficava voando em volta de você. Eu era um coraçãozinho alado e amadero! Esse era o nosso mundinho de floresta na minha imaginaçãozinhazinha. Eu era um fadinho-planta-coração-alado e você era o amor que fez crescer a floresta, você era o motivo da brincadeira, da felicidade, do céu azul e dos olhos brilhando e eu ficava sentado num montinho olhando o mar e te lembrando quando você ainda não estava perto. Você não ia embora nunca nunca e sorria e assim matava a sede de todas as criaturas encantadas e seus cabelos flutuavam e piscavam que nem vagalume e toda a felicidade do planeta só era passada às pessoas quando você ficava feliz. E eu também ficava. Assim que era.

Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003

Granizo

Noite que é noite não acaba
antes do silêncio grosseiro do desconsolo
As luzes de cada pedaço da metrópole
quebram o escuro do oco do estômago dos desamparados
A falta delas
quebra o frio da boca do estômago dos solitários

Andam pelas ruas os gatos de rua e os corajosos
No horizonte há prédios donde se pode ver
outros prédios em outros horizontes
Os gatos e os amantes olham para a lua
e seus olhos brilham
Enquanto os medrosos acendem a luz
e fecham os olhos

Conto uma, conto duas, conto três, conto quatro
Partem as pernas que partem os corações
e se saem de um emaranhado de palavras
algumas que te consolem
chovem os cacos de gelo cortando
a calmaria da tarde

E quando amanhece a vida
-bom dia, São Paulo!
o que está errado agora está no lugar
E perante meus olhos a cidade brilha
em boas-vindas.

Terça-feira, Julho 16, 2002

Primeiro Beijo

Naquela idade o sol fazia o céu azul e esquentava muito bem a cidade. O garoto tinha dezesseis anos, nenhum romance em nenhum deles, e a menina, quinze, tão namoradeira quanto ele. Não consigo e nem quero acreditar que a solidão amorosa dos dois tivesse razões estéticas. Disse-me, outra garota, que o menino era bonito, mas me sinto mais seguro em dizer que talvez ele fosse simpático e ficasse bem sorrindo. A menina, por sua vez, era sim bonita, e isso posso dizer com a segurança de quem fala de outra pessoa.
Com a ajuda de uma amiga em comum, o menino e a menina resolveram se encontrar. Ela o amava, embora tivesse estado com ele apenas algumas poucas vezes, enquanto ele a via como uma pessoa legal para se estar num sábado à noite.
O momento em que uma boca tocou a outra estava, quem sabe, muito mais carregado de curiosidade do que de qualquer outro sentimento. Quando elas se separaram, cada um parou um ou dois segundos enquanto pensava na experiência. Na cabeça dele, ele pensou que era de água-de-coco o gosto que sentira e, na dela, sabe deus o que se passava. Seja o que for, deve ter sido coisa boa, pois logo menino e menina quiseram mais, e deram o segundo beijo de suas vidas, e, depois, o terceiro, e o quarto, e assim mais beijos foram trocados e não demorou para tanto beijo se transformar em namoro.
Diz o idealismo popular que o primeiro amor de duas pessoas seria a experiência a ser tomada como base para os romances que elas tivessem adiante. Verdade ou não, o primeiro amor desses dois logo se tornou um modelo invejado por quem teve a sorte de presenciar algum momento de tão pura relação. O garoto fechava os olhos e se jogava completamente no amor que havia descoberto. O sol, em seu peito, brilhava forte, fazendo azul e quente o caminho pelo qual ele guiava a si e à sua namorada. Comentavam, as pessoas, na época, que menino e menina eram lindos juntos e que eles pareciam viver em um mundo à parte. O que eles não entenderam foi como pôde, tão de súbito, o casal e seu mundo terem se tornado feios juntos.
Bem, o que aconteceu foram poucas palavras e um abraço mal-dado num dia cuja data se perdeu, quando a menina chegou de uma viagem de um mês ou mês e meio. Depois daquele abraço frio, ela olhou nos olhos não verdes nem contentes do namorado e disse que não estava se sentindo bem com ele e que era assim, volúvel. Ele, acho, não entendeu o que aquilo queria realmente dizer, de forma que se jogou mais uma vez naquele amor, e de novo, e de novo. Pelo que vejo, no dia em que a menina viajou, o menino não pôde mais guiá-la dentro daquele mundo em que viviam. E ela, como nunca tinha dado um passo no mundo em que não ajudou a criar, resolveu acabar com a fantasia. Assim, após seis meses de uma relação que já não causava mais inveja a ninguém, acabou o primeiro namoro de duas pessoas.
Então, o garoto abriu os olhos e viu sua ex-namorada ainda linda, ainda encantadora e ainda com aquele sorriso que a fazia brilhar. É uma pena que ela tenha sido tão ruim namorada e, depois, tão ruim amiga, a ponto de tudo o que ela tocou ter apodrecido e, agora, doer, levemente, como cicatriz.
-Assim, não quero mais – falo olhando nos seus olhos.
Ouvi dizer que destruíram uma parte muito boa de mim.

Domingo, Fevereiro 03, 2002

Despedidas

Pouco a pouco o mundo vai desmoronando.
Quando se deita para dormir procura-se no fundo do vazio um pensamento prateado que reflita seus próprios olhos, e diga, como num espelho:
-Oi, eu sou você.
E ainda lembra, bochecha colada na cama, do sorriso da menina-coração que segura suas asas para não deixar que o vento do mundo leve... leve...
... e não traga mais.
Outrora houvera aqui tantas certezas que fez-se poemas para que nada nunca mudasse. No fundo, flutuam agora coloridas bolhas de sabão.
Embora já não encontre mais os antigos pensamentos prateados, olho para as lembranças vazias, transparentes, e penso:
-Oi, você sou eu.
Estas são palavras que devem ser esquecidas, ninguém toca as bolhas de sabão. Mas, numa delas, ainda encontro a minha resposta:
-Isto é uma coisa que eu tenho que fazer por mim.

Sábado, Novembro 24, 2001

Desejo Íntimo

Fez-se pela necessidade,
o amor de um chocolate,
pois em períodos de tristeza
o amor faz-se carência

Poema desiludido
sem fundo, sem sentido
moleza improvisada
de doença sem ter nada

O que eu quero é um suspiro
em meu peito um arrepio
de seu beijo apaixonado

Meu amor, meu remédio
para o meu caminho ser mais fácil
alguém que goste de mim.

Quinta-feira, Agosto 02, 2001

Amarelo

No banheiro do colégio
frente ao espelho vejo
minha cor amarela-escura
minha cara de nada
meus olhos sem fundo,
no fundo
essa expressão de insegurança,
de choro atrasado e engolido
e penso
que eu não sou uma pessoa triste,
eu sou uma pessoa amarela triste
cor de leito de mangue
-acho que eu deveria ter nascido caranguejo.

Quinta-feira, Março 23, 2000

Inocentes

Quando numa manhã nos encontrarmos
Dentre tantos sentimentos
Saltará da sua boca um sorriso
e de meu coração outro
Trocaremos poucas palavras, mas
o que nos dissermos será um enorme vazio;
é o que não nos dissermos
que nos fará contentes:
Nossos olhares, nossos sorrisos, nossas faces
não esconderão as nossas belíssimas verdades
que eu a amo e todos os seus males
como à vida, aos céus, aos mares.

Quando porventura nossas mãos se tocarem
e segurares a minha para senti-la mais um pouco
Todos os deuses se curvarão
perante o tão forte efeito sentido em meu coração
As palavras que tentarmos dizer nesse momento
não diremos;
Nossos olhares se encontrarão e entenderemos:
A manhã mais linda é aquele em que
acordamos e o sol nasceu para nós.
Não há, porém, manhã em que o sol
não nasça para nós;
Há as em que não acordamos para o sol.

Quando, porém, o tempo passar
nosso silêncio acabará por te machucar
E decidirás então esquecer
e esquecerás, aparentemente.
Mas maior que o erro
de mentir para sim mesmo
é calar o coração
E a, antes oculta, chama ardente
voltará agora mais forte
Mas não hei de passar disso
pois a verdade é inocente demais
para ser aceita por nós mesmos.